Entendo a dor do colega que vive entre prazos, audiências, reuniões e a tentação de transformar a rotina do escritório em conteúdo para as redes. A curiosidade de humanizar o trabalho é humana, mas a linha entre honestidade profissional e exposição indevida pode ser cruelmente tênue. No TED/SP — Tribunal de Ética e Disciplina da OAB de São Paulo — a leitura sobre cada frames, cada edição, não se dá apenas pela estética: envolve a proteção de dados, a confidencialidade do cliente e a dignidade da profissão. Não se trata de censura; trata-se de responsabilidade. A cada story, a cada Reel, o advogado carrega um custo que pode não aparecer na tela, mas que ressoa no atestado de conduta e na própria reputação.
A tentação de compartilhar a rotina pode parecer uma forma de demonstrar “humanidade” do profissional, de demonstrar como pensamos e atuamos. No entanto, a exposição desenfreada coloca em risco informações sigilosas, detalhes de casos, identidades nuances que não deveriam ganhar vida pública. O TED/SP tem olhos atentos, não como tribunal de censura, mas como guardião da ética que orienta o que é permitido, o que é recomendável e o que pode transformar a prática em um desafio disciplinar. E a cada post, o desafio é claro: mostrar expertise sem desmontar a confiança que sustenta a relação com o cliente.
Como equilibrar transparência com sigilo profissional quando a rotina já parece cena de série?
Nesse ponto, você não está pedindo licença para mostrar o dia a dia; você está perguntando onde começam os limites. Transparência não é sinônimo de divulgação de dados sensíveis. Conteúdo técnico pode ser partilhado sem revelar identidades, sem descrever fatos que permitam a identificação do cliente. A prática segura passa por anonimização de detalhes, uso de linguagem genérica, e evitar qualquer menção a dados sensíveis como valores de honorários, estratégias de defesa confidenciais, ou peças processuais com identificação. Ao planejar um stories, pense no tempo de vida do conteúdo: ele pode surpreender pela lembrança de casos passados; pense também no destinatário: quem consome é público diverso, que pode interpretar o que vê com pressa ou com preconceito. O papel do advogado é comunicar com clareza, sem perder a responsabilidade.
Os stories sobre casos reais podem ferir a confidencialidade do cliente?
Se existe qualquer referência que possa facilitar a identificação de alguém, há risco real. O compromisso com o sigilo não é apenas moral; é regra ética que protege a relação com o cliente. A prática segura envolve não mencionar nomes, empresas, ou detalhes que permitam rastrear a identidade, ou usar códigos e situações hipotéticas que não correspondam a pessoas reais. Quando o conteúdo envolve “casos reais”, a regra é clara: tudo que possa deduzir quem é o cliente deve ser eliminado ou transformado em ficção. O conteúdo deve funcionar como estudo de caso, não como relatório jornalístico de uma pessoa específica.
Existe margem para consentimento do cliente em conteúdos de redes sociais?
O consentimento é peça-chave, mas não é uma carta branca. Ele precisa ser explícito, informado e específico sobre cada tipo de divulgação. Em termos práticos, o contrato de prestação de serviços pode prever a possibilidade de uso de trechos de depoimentos, imagens de ambiente de trabalho, ou de referências a temas abordados no escritório, desde que haja compreensão de como o material será utilizado, por quanto tempo e onde será publicado. O consentimento não funciona como escudo único; ele deve coexistir com a necessidade de preservar o sigilo e a identidade do cliente. Em muitos casos, a melhor prática é obter consentimento por escrito para cada vídeo ou série de conteúdos, com cláusulas que permitam alterações futuras caso o conteúdo precise ser ajustado para cumprir limites éticos.
Quais práticas ajudam a reduzir riscos sem apagar a verdade do dia a dia?
Há uma fronteira entre autenticidade e exposição. Comece com um cronograma de temas que prioriza aspectos técnicos e educativos (jurisprudência, peça prática, ética processual), em vez de narrativas de casos específicos. Use linguagem técnica acessível, sem falar de clientes ou depoimentos identificáveis. Edite para remover detalhes de prazos que possam acionar identificação, substitua situações por dados genéricos, e mantenha a privacidade como primeira regra. Use o recurso de voz neutra, não sensacionalista, e foque em aprendizados, métodos de atuação, e decisões que possam orientar colegas. A disciplina de cada peça deve ser pensada sob a lente da proteção de dados, da confidencialidade, e da licitude da divulgação.
O que o TED/SP observa em termos de publicidade e autopromoção nas redes?
O Tribunal de Ética e Disciplina não proíbe a presença online, mas exige que a comunicação seja compatível com a dignidade da profissão e com o conteúdo informado. Publicidade não pode parecer propaganda enganosa, nem explorar a desgraça de alguém para a obtenção de clientes. O tom deve ser educativo, não exibicionista; os materiais devem deixar claro que se trata de serviço profissional, com dados que não induzam o público a erro. Em especial, conteúdos que se apresentem como “casos reais” devem evitar qualquer leitura que reduza a confidencialidade, sob pena de sanções disciplinares. A ideia-chave é a distinção entre informação técnica voltada ao aprimoramento profissional e marketing de facade, que é vedada pela ética na prática jurídica.
Como conduzir a comunicação sem transformar a atuação em espetáculo?
A resposta não é silêncio, é filtro. Conteúdo que mostre a realidade do dia a dia sem sensacionalismo pode coabitar com uma prática ética. O segredo está em narrar aprendizados, não fatos sensíveis, em manter o foco na técnica, na estratégia, e nas lições jurídicas que podem ajudar outros advogados. O tom precisa ser humano, porém contido; a linguagem deve ser direta, sem jargão agressivo ou promessas de resultados. Lembre-se: a transparência é útil quando ela educa, não quando ela hipnotiza. O que se mostra precisa ser algo que preserve a dignidade do cliente e a reputação do profissional.
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Paulo Grande Advocacia
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