Antes e depois de cliente em processo: por que esse tipo de post levanta bandeiras no TED/OAB

Você, colega advogado, sabe o peso que carrega cada decisão de publicar nas redes sobre casos em que já atuou. A curiosidade do público e a vontade de compartilhar aprendizado costumam andar juntas, mas a linha entre aprendizado e captação de clientela é tênue — e, para quem pisa no TED/OAB, delgada demais para ignorar. Quando falamos do antes e depois de um cliente em um processo, não estamos descrevendo apenas uma narrativa; estamos acionando uma bateria de interpretações. O leitor pode entender a sequência como prova de que existe um caminho seguro para vencer, pode suspeitar de promessas de resultado ou, ainda, pode pensar que a privacidade do cliente foi desfocada. A dor que muitos sentem é real: a vontade de mostrar competência encontra a necessidade de cumprir regras que protegem a dignidade do cliente e a integridade da profissão. Em momentos assim, a resposta não chega por um jargão técnico, chega pela prática responsável, pelo cuidado com o que é exposto e pelo respeito ao sigilo e à confiabilidade do sistema jurídico.

Esse dilema não é fruto de exagero sensacionalista. É uma leitura que nasce do cotidiano das redes e das pressões que cada advogado enfrenta para se posicionar, se diferenciar e, quem sabe, atrair mais casos. Publicar o antes e depois de um cliente pode parecer uma demonstração de transparência; na prática, pode soar como uma vitrine de resultados. E é justamente aí que residem os riscos: a narrativa pode sugerir garantias de sucesso, pode expor detalhes sensíveis sem o consentimento apropriado e pode converter uma história pessoal em uma estratégia de captação de clientela, o que viola princípios básicos da ética profissional. Não se trata de censurar a experiência, mas de traduzi-la em uma comunicação que preserve a dignidade do cliente e a sobriedade da advocacia, sem perder a força técnica que muitos leitores precisam para entender o que fazemos de verdade.

Por que esse tipo de post pode soar como captação de clientela?

Primeiro, a leitura é imediata: um antes/ depois promete uma transformação e, em um mundo de feeds rápidos, o efeito é poderoso. Quando a história enfatiza o desfecho, o público pode inferir que o advogado detém um método infalível ou que o resultado depende apenas da atuação dele, o que facilita uma leitura de que o conteúdo serve para atrair clientes. Em segundo lugar, o formato é sugestivo: imagens, números de processos, depoimentos ou depoimentos implícitos — tudo isso, se não for manejado com consentimento e com foco educativo, pode ser visto como promoção de serviços jurídicos. Em terceiro, há a delicadeza da privacidade: clientes confiam informações sensíveis; expô-las sem salvaguardas pode gerar danos morais e uma percepção de que a relação entre advogado e cliente deixou de ser confidencial para se tornar pública. E, por fim, existe a influência das plataformas: algoritmos valorizam conteúdo emocional, direto e de apelo visual; isso pode empurrar a comunicação para o terreno da persuasão, em vez de para o da explicação técnica e da responsabilidade ética.

Quais são os limites éticos que cercam esse tipo de conteúdo?

A ética profissional não proíbe o compartilhamento de conhecimento; proíbe, sobretudo, a veiculação de publicidade ou de captação de clientela disfarçadas de conteúdo informativo. Publicidade exige clareza, limites e respeito à dignidade alheia. Em termos práticos, não se deve identificar o cliente, nem descrever fatos capazes de identificá-lo, nem apresentar o resultado como garantia. O conteúdo deve privilegiar a explicação de conceitos jurídicos, a reflexão sobre o direito processual e a apresentação de um percurso técnico, sem prometer vitórias específicas. A regra básica é simples: manter o foco na educação e na responsabilidade, não na persuasão de contratação baseada em uma narrativa sensacionalista. Se houver participação de terceiros, o consentimento tem que ser explícito, específico e registrado. Essa postura protege o cliente, a reputação da advocacia e a confiança pública no Judiciário.

O que a doutrina e, quando cabível, o Conselho Federal da OAB orientam?

De modo geral, a comunidade jurídica alerta para que a comunicação pública da advocacia seja informativa, ética e transparente, evitando qualquer elemento que possa induzir a erro ou a captação indevida. Embora o texto não substitua a leitura da norma, o entendimento amplamente aceito aponta para: evitar prometer resultados; não apresentar situações como um caminho único e garantido; preservar a identidade do cliente; e deixar claro o propósito informativo da comunicação. Quando o assunto envolve diretrizes oficiais, muitos colegas citam o que é reiterado pela OAB e pelo Conselho Federal no sentido de que publicidade e propaganda precisam manter a dignidade profissional e não devem explorar a credulidade do público. Em síntese: compartilhar conhecimentos técnicos e experiências de atuação é bem-vindo, desde que não se transforme em ventania de promessas, não se crie a sensação de que há um método único para todas as causas e não haja viés de promoção disfarçada.

Como evitar tropeços sem deixar de divulgar sua experiência?

A resposta não é fechar portas para a comunicação, mas lapidar a forma de fazê-la. Em vez de retratar apenas o resultado, conte o raciocínio jurídico, mostre o caminho processual, explique as dificuldades técnicas que surgiram e as lições aprendidas. Utilize dados anonimizados, longe de qualquer identificação, e obtenha consentimento explícito para qualquer divulgação que envolva terceiros. Adote um tom educativo, com foco na explicação, e lembre-se de que a promessa de “resultado garantido” não cabe no padrão ético da advogacia. A comunicação profissional tem que ser sincera e responsável: descreva o contexto, o método, as dificuldades e as limitações da atuação, sem vender atalhos ou milagres. Assim, você preserva a confiança do público, a integridade da profissão e a sua reputação como jurista comprometido com o devido processo legal.

Quais boas práticas podem nortear sua comunicação?

Ao decidir compartilhar uma experiência, priorize a qualidade técnica da narrativa: explique o problema jurídico, a estratégia processual adotada, as etapas da condução e os aprendizados que resultaram da experiência. Preserve a identidade do cliente, prefira depoimentos que expressem a experiência sem expor dados sensíveis e sempre fonde a divulgação na finalidade educativa ou institucional. Mantenha um tom objetivo, que demonstre preparo técnico, experiência prática e compromisso com a ética. Em vez de exibir números de processos ou prometer resultados, opte por conteúdo que mostre seu raciocínio jurídico, sua atuação profissional e a responsabilidade que você quanto advogado tem com a sua própria reputação e com a confiança da sociedade na Justiça.

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@paulo.grande.adv



Paulo Grande Advocacia

O caminho ético não é o caminho fácil, mas é o único que sustenta a credibilidade da nossa profissão. Ao escrever sobre casos, mantenha o foco no conhecimento, na compreensão jurídica, nos aprendizados do processo e na defesa do devido processo legal. O leitor precisa enxergar a prática da advocacia como uma disciplina que lida com pessoas, não como uma vitrine de vitórias. Quando a comunicação for feita com responsabilidade, você não apenas evita sanções como também contribui para um ecossistema de confiança, no qual clientes sabem que podem buscar orientação jurídica com integridade, sem surpresas desagradáveis.

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